É um cantar que nasceu pelos corredores da fronteira, e há muito tempo é assim, andejar e andejar, distâncias que são encurtadas pelas patas de fletes, e relatadas aqui pelo linguajar próprio, de campo.
Aqui vamos relatar o que vivenciamos, sentimos e até os sonhos que nos rodeiam, a cada passo do flete destino de quando em quando firmamos os arreios do pensamento e paramos n'alguma porteira divisora de razões, daí que brotam as discussões, cada um defende suas origens, peleiam por algum ideal, mas não podemos esquecer de que andamos sempre "Compondo Rastros".
Cada um tem seu passado que cruzou, deixou "rastros", por isso temos que firmar a rédea do destino e seguir firme na estrada que escolhemos, é por aí o caminho que estamos "Compondo Rastros".
Do rastro que me condena
Canto aqui as minhas penas
Colhidas por tantos pagos
Aroma de terra e pasto
Adoçado de sentimento
Que se mesclou aos ventos
Pra compor os meus rastros"
Carlitos da Cunha de Quadros
Santa Maria - 24/07/2010


Radio Fronteira Gaúcha
domingo, 8 de abril de 2012
Querência e fé.
sábado, 2 de abril de 2011
Romance de Estrada Longa
o jeito que era meu pago!
A distância planta ausências
pelas estradas compridas,
e o tempo gasta a memória
groseando o cerne da vida.
Nessa época os potrilhos
nasciam, trocavam pêlos,
cresciam e pelechavam,
com maçarocas nas crinas
pelos fundões das estâncias.
Os touros abriam covas,
apartavam as companheiras
formando xucros rodeios
pra viver nos rincões lindos
das invernadas antigas,
onde cimbravam os laços
na lida das campereadas;
e as mãos do vento passando
tiravam levianas plumas
arrancadas uma a uma
dos pendões dos macegais,
replantando na Querência
nas encostas e coxilhas,
Pastos, trevais e flexilhas
e o viço dos pajonais.
Era assim naquele tempo
a campanha do meu pago!
Até mesmo sem saber,
dormia a paz nos pelegos
fincada fundo na alma
e nos galpões dos campeiros.
As águas puras das sangas
brincavam nos pedregulhos,
e quando cheias, saíam
a campo fora do leito;
empurravam as capivaras
para os tranqüilos remansos
nas beiradas dos lagoões!
Nas recorridas de campos
tropeçavam buenos fletes
pelas tocas das mulitas
metidas rasas no chão,
mansamente refugiadas
na maciez dos seus ninhos,
no vigor dos pastiçais!
Ainda lembro, era assim
quando saí do meu pago!
Quando os tahãs levantavam
das cambotas das lagoas
para as alturas do céu,
e os casais de quero-quero
impeçavam a disfarçar
suas lindezas de ninhos
pelas saliências do chão,
a primavera chegava
trazendo flores e aromas,
vestindo com novas folhas
a nudez dos cinamomos.
A vida naquele tempo
se entretia encismada
nos encantos de si mesma!
À tardinha, os maçaricos,
qual ponta escura de lança,
sempre voltavam do sul,
as asas como panuelos
tremulando no espaço
entre o verde das coxilhas
e o sem fim do céu azul.
Nas noites de lua inteira
o sereno temperava
a voz macia das gaitas,
transpondo o melhor das almas
nas plumas dos dedos rudes,
sonorizando as janelas
pelos botões dos teclados;
as emoções retoçavam
na plangência das guitarras;
e as serenatas sobravam
para o tamanho dos ranchos,
expandindo as notas claras
bem além dos pára-peitos;
e entrando pelos portais
com flecos de estrela e lua,
embalavam os sonhos lindos
de tantas moças bonitas.
Passou tudo à meia-rédea
e quase nada sobrou!
A infância nesse tempo,
tinha mais tempo de ser!
Os guris tinham bodoques,
arapucas e mundéus
gados-de-osso ou sabugo
e o lombo dos petiços
para fazer escarcéus.
Era assim naquele tempo,
mas quase nada restou!
Ficou somente a memória
de um dia de primavera
quando saí do rincão.
O sereno ainda goteava
despencando sonolento
do longo beiral de zinco
na varanda do galpão!
Rondando o varal de charque,
do alto das timbauvas,
as calhandritas cantoras
melodiavam nas gargantas
com timbras de amanhecer,
a mais sublime beleza
que um canto já pode ter.
Distraído do silêncio,
um touro berrava ao longe
mergulhando nas canhadas!
As seriemas cantavam
repetindo as clarinadas
que desciam nas ladeiras
na direção dos banhados.
E no açude "das casas",
traíras soltavam botes
formando lentas maretas
como rodilhas se abrindo
no costado do juncal.
Um biguá abria as asas
como quem quer abraçar,
alguém que andava distante
e acabasse de chegar.
E a melena dos salsos
roçava a grama da taipa
lentamente ao balanço
de uma brisa de setembro!
Emalei poncho, encilhei
peguei cavalo de tiro
mais a mala-de-garupa
toquei a vida por diante
para soltar na estrada,
a buscar não sei o que
na incerteza das léguas
pelos volteados caminhos.
Segui o primeiro rumo
que o corredor apontou;
e o tramerio perfilado,
atilhos junto das cavas
como bigodes torcidos,
mudo me olhava passar;
com um cavalo de tiro,
poncho emalado nos tentos
mais a mala-de-garupa
e a esperança no olhar!
Passavam tropas, carretas,
andejos e domadores,
comitivas e tropilhas,
comparsas de esquiladores,
todos "terseando" esperanças
na ilusão dos corredores.
E a cobiça de horizonte
me distanciou prá mui longe
plantando sinais de fogo
junto de muitas aguadas.
E a cada pouso um recuerdo
se estirava na lonjura:
Apenas quem estradeia,
sabe o que vale um momento
quando as lembranças dão volta
enleadas na ternura
e nas razões que detêm,
tironeando o pensamento
pra o meigo rosto de alguém!
Mas tudo ficou prá trás
escondido na distância
disfarçada de horizonte
sem compreender infinitos!
Até que um dia o caminho
que abriga as poeiras cansadas,
confunde o rastro do pingo
e o coração dos andejos;
e mostra mil outros rumos
pra outros idem buscar,
com seus cavalos de tiro
poncho emalado nos tentos
mais a mala-de-garupa
e a esperança no olhar;
e quem sabe iguais a mim
irão minguando esperanças;
Co'a vida longe do pago
para a saudade voltar!
Fonte: Do livro Romance de estrada longa – poemas – Edição: Martins Livreiro – 1995
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
Rancho...
sábado, 11 de dezembro de 2010
Hoje foi mais que um dia...

E fazer, nada!
terça-feira, 12 de outubro de 2010
No Assovio das Três Marias
domingo, 3 de outubro de 2010
Aqui...
As comparsas de esquila a martelo...
O brete, o rodeio e as marcações porteira a fora.
O rádio emudeceu as vitrolas
E o caminhão matou o tropeiro.
E o homem? E a mulher?
Ah! Estes ainda não...
Os homens e mulheres deste pago
Estão como cernes de guajuvira,
Eretos e firmes, como sempre.
Nas suas almas está guardada
A melhor fibra da raça crioula,
Mantendo, como patrimônio maior,
A honra, a dignidade, o apego ao chão,
Ao trabalho e a honestidade.
A gente do meu rincão
Sabe arrancar deste solo
O seu sustento suado.
Crescemos tranqueando atrás do arado
E conversando com os bois,
Por isso temos o braço forte, as mãos, a alma
E o coração calejados pelo trabalho pacífico;
Conduta que adquirimos pelos ensinamentos
Dos nossos anteriores que balizaram rumos para nós
E montaram o cavalo para defender
E tornar brasileiro o chão onde pisamos
E que guarda as suas cinzas.
Aqui, as nostalgias da campanha
encontram amparo nas cruzes sozinhas
quando debruçam as sombras de braços abertos,
sobre a teimosia dos pajonais...
por essas imagens é que as saudades
ganham estatura de cerros.
Aqui, repartimos a dor em silêncio
porque a alma, quando está ferida,
substitui as palavras pelo idioma do coração
Aqui, a sombra dos cinamomos
É muito mais que uma sombra...
É o lugar onde comungam os mansos e xucros,
Remoendo, tranquilos, nos sóis dos verões,
A seiva natural dos campos onde as espécies se igualam,
celebrando a vida, ao redor das casas.
Apenas aqui o andante descobre
o valor de um “ô de casa”, quando sovado de corredores
bate palmas de esperança na frente do parapeito
e as portas se abrem para ouvir
os seus relatos colhidos nas estradas.
Aqui, a cordeona tem voz de recuerdo;
A guitarra tem alma de pátria e querência.
Os galos acordam as madrugadas
E o cheiro dos campos vem dormir dentro de casa.
Aqui, se conhece a volta certa dos cambões das porteiras
E se entende de laços, arames e tranças,
De potros e domas, conjuntas e jugos,
Arados e enxadas, mariposas e galeotas,
Machados e tiradeiras...
Aqui, as mangueiras encerram os tombos dos pealos
e os comandos de “forma cavalo”,
Os berros das vacas mansas timbram a alma do pago,
Com refrões enluarados de madrugada.
Apenas aqui ainda se ouve,
Nas tardes quentes de chuva,
O tuco-tuco justificando o seu nome
E as calhandras ainda encontram
Varais com charque para temperar o assovio.
Nas noites quentes ainda se escuta
A saparia afiando o canto nas chairas dos juncais.
As esporas ainda riscam o chão dos galpões
E as botas têm o couro queimado pelo suor dos cavalos.
As chaminés dos fogões a lenha
ainda fumegam pelas madrugadas
e, ainda, se pode ouvir as cantigas
das sangas claras, os berros de touro
e a cantoria dos grilos...
As babas-de-boi tremulam nos caraguatás,
hasteando em mastros de espinhos
Os rumos dos ventos
Aqui, ainda se pode ver bombachas remendadas
E camisas feitas de saco estendidas num quarador
próximo à tábua de bater roupas,
nos empedrados das sangas
As mulheres ainda usam sombrinhas,
Lenços na cabeça, para a lida
E ainda bordam panos, aventais, guardanapos...
E ainda fazem pão com torresmo.
Aqui, a sabedoria secular ensinou
que fazendo uma cruz com carvão
sobre os ovos de galinhas para chocar
os trovões não conseguem gorar
e a natureza se encarrega de “descascar” as ninhadas
e espalhar infâncias de veludo nos terreiros bem varridos.
Aqui ainda se usa o macete
e a mordaça para sovar um couro...
e se toma café com bolo frito
nas tardes chuvosas de inverno.
A cicatriz dos rodados que nasciam nas cacimbas,
hoje serve de caminho para a sobra dos aguaceiros
engordar as enchentes.
As vezes, o céu pinga pelas goteiras dos nossos tetos
apaga luas e estrelas...
mas acende, em cada um, a sabedoria e a esperança.
Aqui, a felicidade não tem anéis nos dedos
nem diplomas nas paredes.
Mas se tem olhos na alma capazes de interpretar
as parábolas da natureza...
porque sabemos:
Que o canto matinal dos bem-te-vis
É, na verdade, um diálogo com Deus.
- Romance de estrada longa – poemas – Edição: Martins Livreiro – 1995
- Aqui: memorial em Olhos d’Água – ensaio etnográfico – Impressão: Cecom – URCAMP - 2003
- Meu canto, poemeto de campo – Impressão: Cecom – URCAMP – 2004
- Vida adentro, tempo a fora – versos de campo – Impressão: Gráfica Instituto de Menores – Bagé – 2009
- Estampas do pampa – fotos – inédito
- Meu canto II, poemeto de campo – inédito
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
Relatos...
“Relatos” o nome ideal para cada dia vivido naquele chão de homens campeiros, de domadores, pealadores e tropeiros.
Paisagem de campo.
segunda-feira, 26 de julho de 2010
Compondo Rastros...
É próprio do gaúcho deixar seu rastro nas invernadas, na forma redonda dos cascos.
foto: Frederico Azevedo (na sua tordilha/ fim de tarde)





